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quinta-feira, 25 de março de 2010

Meditação sobre a Santidade

Aprovadas em 1868 pelo Cardeal Victor Augusto Isodoro Deschamps, Arcebispo de Malinas (Bruxelas) e Primaz da Bélgica, as Meditações Práticas para Todos os Dias do Ano compostas pelo jesuíta Pe. Bruno Vercruysse se destacam pela solidez da doutrina. Ressaltou o cardeal, ao aprová-las, que seu uso seria de grande utilidade para os que aspiram à perfeição, ou seja, à santidade. A seguir são apresentados alguns excertos da inspirada obra do dedicado sacerdote, referentes a meditações recomendadas para a vigília e para a festividade de Todos os Santos.

Os santos não nasceram santos, tornaram-se santos. Filhos de Adão como nós, tiveram que defender-se como nós das más inclinações do seu coração e das seduções do mal. Muitos deles viram-se numerosas vezes entre o terem de ir contra a sua consciência ou sujeitarem-se às terríveis conseqüências com que os ameaçava a impiedade triunfante. Que fizeram? Resistiram, combateram, bem decididos a antes morrer do que consentir na iniqüidade. Antes morrer do que manchar a alma: esse era o seu grito de guerra. A fé os amparava, a fé os tornava invencíveis.

Tais pensamentos são muito apropriados para nos manter a coragem. Os santos não estavam, portanto, melhor colocados do que nós para se salvarem. Muitos tinham paixões mais violentas a domar do que as que temos, obstáculos maiores a vencer do que os que enfrentamos. Ademais, nós dispomos dos mesmos meios de  santificação que eles, ou, melhor dizendo, nós, na situação em que Deus nos colocou, dispomos de meios mais numerosos e eficazes do que muitos dentre eles. Por que, então, parecemos tão pouco com eles? Porque temos sido fracos e covardes no combate; porque nossa vontade não tem energia; porque, enfim, a santidade sempre supõe uma vontade forte, sempre exige violência. O Reino dos Céus sofre violência e só os esforçados o alcançam, diz Jesus Cristo.

Os santos foram fortes e ardentes nos combates espirituais, mas foram ainda mais constantes em empregar os meios de santificação que tinham ao seu alcance. Perseveraram até o fim, e assim cumpriram a condição que Jesus estabeleceu para se ganhar a vitória. Quem tiver perseverado até o fim, esse será salvo. Por isso triunfaram de tudo: das zombarias, das solicitações e das ameaças do mundo, da malícia e da raiva dos demônios, de todos os suplícios inventados pelo ódio dos tiranos e, o que é mais difícil ainda, das fraquezas e seduções do seu próprio coração.

O que nos falta, em geral, não é a boa vontade, n ão são nem mesmo os bons propósitos: é a fidelidade em pô-los por obra, é a perseverança.


Imaginemos a que grau de perfeição teríamos chegado se tivéssemos executado fielmente o plano de vida que tínhamos traçado nos belos dias do nosso primeiro fervor, no nosso primeiro retiro, no nosso noviciado, ou mesmo nos retiros consecutivos! Mas, ai! Os nossos bons propósitos, em vez de durarem um ano, não duram muitas vezes nem um dia! Não nos acontece de já nos termos esquecido, ao meio-dia, de um propósito que fizemos pela manhã, na meditação?

Depois de termos meditado nos combates e nas vitórias dos santos, meditemos também no seu triunfo definitivo. Foi por Deus que eles combateram e perseveraram no combate; Deus quer mostrar-lhes e dar-lhes a saber o que é terem sido fiéis até o fim. Ele recompensará como Deus que é, quer dizer, magnificamente. Tudo o que pudermos imaginar de glória, de gozo, de felicidade e delícias, isso nada é em comparação com as recompensas celestes. É a fé que no-lo diz: nunca o coração do homem pode compreender - exclama o Apóstolo - o que Deus preparou para os que o amam.

Meditando nesses pensamentos, sentiremos dilatar em nós o coração, inflamar-se a nossa coragem, e então exclamaremos com São Paulo: nenhum sofrimento desta vida tem proporção com a glória que se manifestará em nós. Longe, pois, de nos desanimarmos com as dificuldades, suspiremos - com um São Francisco Xavier, e uma Santa Teresa - pelos combates, humilhações e sofrimentos. Façamos tudo o que está ao nosso alcance para nos animarmos desses sentimentos, como fruto de sta meditação preparatória para a festa de Todos os Santos. Ofereçamos ao Senhor com esse fim as orações, os sacrifícios e as boas obras nesse dia.

Suponhamos que um homem convoque os habitantes de uma cidade, e lhes dirija as seguintes palavras: "Meus senhores, eu percorri todo o mundo, viajei por mares desconhecidos, e por fim descobri uma terra maravilhosa, uma ilha encantadora, em que as condições de vida são muito diferentes das de cá. Lá, os homens nada têm a sofrer, nem sequer os incômodos do frio e do calor: a temperatura mantém-se sempre agradável, e não há necessidade alguma de trabalhar, pois a terra tudo produz espontaneamente. Lá não se teme os ladrões ou os invejosos, porque não existem más paixões; lá não há o que recear, nem as doenças, nem os incômodos da velhice, nem as angústias da morte". Nesta altura, que diriam os ouvintes? Que o viajante estava zombando deles, ou que estava contando um lindo sonho, ficção poética.

O que neste mundo não passa de um lindo sonho, de uma ficção poética, no Céu... é a realidade! Isso, a fé nos assegura: "e não mais haverá morte, nem luto, nem grito, nem dor", diz


 São João (Ap 21, 2). Ah! E se o Céu não fosse mais do que isso, não valeria já a pena fazer, se fosse necessário, grandes sacrifícios para adquirirmos segura garantia de o alcançarmos? Com toda a certeza: os que acreditassem na existência da ilha afortunada apressar-se-iam a vender as suas propriedades só para terem dinheiro para a viagem porque, enfim, diriam que "aqui não se pode escapar da velhice, nem da morte que tudo leva".

No Céu possuiremos Deus, o Ser infinito que co ntém em si todos os bens possíveis no mais alto grau de perfeição. Por conseguinte, a nossa felicidade será perfeita. Perfeita em todas as faculdades da alma. Na memória, que doces recordações, que deliciosos pensamentos, mais que tudo o que se pode exprimir, a povoarão constantemente... No entendimento, cada um receberá um conhecimento de tudo, infinitamente superior ao de todos os sábios do mundo. A vontade, ela será instantânea e completamente satisfeita em todos os seus desejos. Teremos felicidade perfeita em todos os sentidos do nosso corpo, tornado semelhante ao de Jesus Cristo ressuscitado.

Toda a beleza que os olhos possam ver, toda a melodia que os ouvidos possam ouvir, toda a suavidade que o sabor e o olfato possam perceber... Numa palavra, todo o gozo ou prazer que o corpo possa experimentar será herança nossa, sem medida e sem temor de excesso, porque então a concupiscência já não terá outro atrativo que o do bom e do honesto.

A nossa felicidade no Céu será então, sob todos os aspectos, realmente perfeita. Nós acreditamos, nós felicitamos os santos que a possuem, invejamos a sua sorte e, contudo - coisa estranha! - estamos ainda tão agarrados a esta miserável terra, lugar do nosso exílio! Pouco pensamos no Céu. Ah, se nos fosse dado sermos arrebatados, como São Paulo, ao terceiro céu e saborearmos, ainda que não fosse mais que um instante, as delícias que lá se gozam: como ficariam os outros! Nada mais poderíamos amar na terra, e não faríamos mais que ansiar e suspirar pelo Céu.


O que deve encarecer sobremaneira, na nossa estima, os bens inefáveis que nos estão prometidos no Céu, é que os possuiremos sem temor de os vir a perder, porque jamais terão fim. Mas, poderá alguém objetar: a contemplação e o gozo eterno das mesmas coisas não produzirá uma espécie de fastio ou de enjôo? Repilamos depressa essas idéias grosseiras, pois sendo Deus o Ser Infinito, a infinita Beleza, a infinita Amabilidade, os bem-aventurados descobrirão sempre nele coisas novas, novas belezas, novos gozos, sem jamais poder esgotá-los, porque o finito não poderá abarcar o infinito.

Compenetremo-nos bem desses pensamentos e em todas as nossas penas do corpo ou do espírito digamos com o Apóstolo: não têm proporção alguma os sofrimentos da vida presente com a glória que há de brilhar em nós no céu. E, longe de nos agarrarmos à terra, tardar-nos-á sempre, como tardava aos santos, entrar na posse do Céu. Também nós exclamaremos como o rei-profeta: quando irei a ver-vos, Senhor meu Deus, na mansão da vossa glória? Oh, quem me dera ter asas, pois eu voaria.


Façamos um colóquio com a Santíssima Virgem, Rainha de todos os santos. Felicitemo-la, peçamos a ela que nos obtenha uma fé mais viva, uma caridade mais ardente, um desprezo maior de todos os gozos que o mundo pode nos oferecer, uma vontade mais fecunda em boas obras, e os mais ardentes suspiros pela Pátria Celestial.



Excertos extraídos e adaptados da obra Meditações Práticas Para Todos os Dias do Ano (Pe. Bruno Vercruysse S.J., versão em português pelo Pe. Luís Moreira de Sá e Costa S.J., terceira edição, Livraria Apostolado da Imprensa, Porto, 1950).

quinta-feira, 18 de março de 2010

A Escolástica em pedra

Vinícius Sabino Gomes

Pode uma obra de arquitetura ou de arte representar um pensamento? Ou uma filosofia?

Vivemos num mundo setorizado, no qual cada área de conhecimento tende a ser estanque e a tornar- se, dia a dia, mais especializada e restrita. Para quem é formado segundo esses parâmetros, a filosofia e a arquitetura nada teriam em comum, estando voltadas para objetos completamente distintos, que exigem métodos de pensamento diversos e modelam estudiosos com mentalidades paralelas, ou quase diríamos opostas.


Corresponderá isso à realidade profunda dos fatos? Ou trata-se de um gênero de deformação própria de um mundo sobrecarregado de conhecimentos mas carente de um ponto monárquico em função do qual ordená-los?

Para melhor dar resposta a essa pergunta, voltemos nosso olhar para os grandiosos monumentos que atraem, todo ano, milhões de visitantes: as catedrais góticas.

Por muito que tenham sido estudadas, ainda não se compreendeu a fundo todo o seu simbolismo. Nem sequer se conhece inteiramente a técnica empregada em sua edificação. Por exemplo, muitas delas, que ostentam hoje em suas paredes granito austero e nu, tinham seu interior recoberto de belas policromias.1 Mas o grande mistério desses edifícios - em cuja construção três ou quatro gerações de medievais utilizaram mais pedras do que os egípcios em dezenas de séculos2 - ainda desafia os especialistas: o que teria motivado uma sociedade inteira a se lançar como um só homem em empreendimentos tão desproporcionais aos meios materiais disponíveis?



A cosmovisão cristã medieval
Tentar entender a vida intelectual e a arte na Idade Média sem se reportar ao espírito, à mentalidade da época, é equivocar-se. Constituiria, por exemplo, grave erro de apreciação atribuir a fatores meramente práticos a decisão do Bispo Maurice de Sully (1120-1196), de destruir a igreja construída apenas setenta anos antes, para edificar em seu lugar a Catedral de Notre Dame de Paris.3

Mas, como podemos definir o espírito desse período histórico? Seus detratores sistemáticos coincidem com seus apologistas incondicionais em reconhecer que era o espírito cristão que governava o agir, o pensar e todas as circunstâncias da vida. "Para compreender os homens e os acontecimentos da Idade Média, é preciso não perder de vista, nem um só instante, que tudo e todos não existem senão em função da Fé cristã".4

Fazendo tácita referência a essa época, o Papa Leão XIII ensina, na Encíclica Immortale Dei, que houve um tempo no qual a filosofia do Evangelho governava os povos.5 O espírito cristão havia embebido até o âmago a sociedade de então, dando origem a uma cosmovisão cristã. Isso se verificava em todas as camadas sociais - desde os mais nobres ou ricos até os mais pobres e humildes -, e todas as atividades humanas estavam pervadidas pelos ensinamentos de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Foi no seio dessa civilização que nasceram as universidades, grandes centros de ensino superior, nos quais, à luz da filosofia e teologia escolásticas, progrediam todas as ciências.

O filósofo e educador francês Étienne Gilson (1884-1978), ao procurar definir o cerne da filosofia medieval, constatou a influência do mesmo espírito criador das catedrais góticas e do pensamento daquela época, a Escolástica: "O espírito da filosofia medieval, tal como entendemos aqui, é portanto, o espírito cristão, que penetra a tradição grega, trabalhando- a por dentro e fazendo-a produzir uma visão do mundo, uma Weltanschauung6 especificamente cristã. Foram necessários os templos gregos e as basílicas romanas para que houvesse catedrais; no entanto, qualquer que seja a dívida dos nossos arquitetos medievais para com seus predecessores, eles se distinguem destes, e o espírito novo que lhes possibilitou criar talvez seja o mesmo que aquele em que se inspiraram, com eles, os filósofos do seu tempo".7

Íntima relação entre Escolástica e catedrais
É, portanto, uma cosmovisão cristã que deve explicar a unidade de espírito que caracterizou a civilização medieval, e esclarecer a íntima relação entre a Escolástica e as catedrais góticas.

Se a plena aceitação da concepção católica da vida gerou um inconfundível estilo de vida, é natural que tenha originado também uma filosofia e um estilo arquitetônico próprios. Com efeito, esta é a constatação de Maria Gozzoli: "uma filosofia - a Escolástica - enquadrava harmoniosamente todo o saber do tempo e afirmava a possibilidade de ascender a Deus não só pela fé, como pela razão. Chegava-se a Deus por um esforço do pensamento, complexo mas requintado, rigidamente formal mas rico de sutilezas. Esses mesmos conceitos que, em arquitetura, inspiraram as catedrais góticas, a sua ascensão para Deus, através de construções complexas mas requintadas, formalmente rigorosas, mas de igual modo ricas de pormenores. A enfática verticalidade de tais edificações revela plenamente as transformações do gosto, do pensamento filosófico, dos ideais estéticos, traduzidos, no plano arquitetônico, por uma renovação das técnicas mediante a introdução de uma série de elementos originais típicos do estilo gótico: a abóbada sustentada por uma cruzaria ogival, a utilização do arco quebrado em vez do arco de volta perfeita (ou de volta inteira, arco românico), o emprego do arcobotante e dos contrafortes".8

Fica claro que o pensamento escolástico se vê perfeitamente expresso na arquitetura das catedrais góticas. Mas resta uma questão: até onde se deu essa relação? Para responder a tal pergunta procuremos estudar mais a fundo as características desse estilo arquitetônico.

Origem do estilo gótico
A arte gótica desenvolveu-se no período da Alta Idade Média, dos séculos XII ao XIV. A princípio era conhecida sob o nome de opus francigenum (obra francesa), devido à sua origem. Mas, à medida que foi se expandindo, ficou conhecida também como a "arte das catedrais". Alguns escritores, como Wilhelm Worringer, lançaram a expressão "estilo ogival", com o intuito de reparar o sentido pejorativo do termo "gótico" (bárbaro, dos godos), inventado pelos humanistas italianos do Quattrocento.

A primeira obra de arquitetura gótica foi realizada pelo abade Suger (1081-1151), ao reformar a fachada e o coro da Abadia de Saint-Denis, da Ile-de-France. Dessa região, o novo estilo passou para a Inglaterra em 1175, com o mestre Guilherme de Sens (†1180), incumbido da reconstrução da Catedral de Canterbury. Na Alemanha, a influência gótica se fez sentir mais tarde, pois no século XII ainda florescia ali a arquitetura românica. Por fim, no século XIII o estilo ogival atingiria a Itália e outros países da Europa Meridional.

Estrutura arquitetônica elástica
Um sistema de abóbadas nervuradas por meio de arcos ogivais cruzados compõe os edifícios góticos, com o objetivo de criar uma estrutura pontiaguda, tendente para o alto. Para consegui-la, os arquitetos medievais se serviram do arcobotante, que permite transmitir para os contrafortes externos as pressões exercidas pelas abóbadas da nave central.

Esse recurso arquitetônico já era conhecido; a inovação consistia em tornar os arcobotantes aparentes, em lugar de mantê-los ocultos sob as coberturas ou disfarçados nas muralhas, dando assim uma solução inteligente e artística a uma necessidade técnica. Uma feliz aliança do prático com o estético.

O princípio básico do sistema ogival é a decomposição dos elementos construtivos em ativos e passivos. São considerados elementos ativos as nervuras das abóbadas, os pilares, os arcobotantes e os contrafortes. Os passivos são as muralhas, as paredes de vedação e o recheio das abóbadas, que, por não exercerem nenhuma função ativa, podem simplificar- se e até mesmo suprimir-se.

A arquitetura gótica se baseia numa estrutura elástica, isto é, numa combinação de elementos arquitetônicos que atuam uns sobre os outros em íntima correlação, mas com certa liberdade de movimento, refletindo analogicamente a própria sociedade medieval, muito orgânica e criativa.

"Bíblia dos pobres"
Esta fundamental mudança na maneira de conceber o conjunto arquitetural representou um notável avanço na engenharia civil e possibilitou o desabrochar da técnica do vitral, cujo emprego fora até então limitado pela estreiteza das aberturas nas construções românicas, em que a sustentação das abóbadas e telhados era confiada às paredes externas.

Os vitrais passaram então a ornar os grandes vãos abertos nas fachadas ou ao longo das naves. Eles iluminavam o interior com luz e cores, mas foram também cognominados de "Bíblia dos pobres", devido às cenas bíblicas neles representadas. Concretizava-se, assim, de maneira requintada e bela, o anelo de gerações e gerações de construtores que ansiavam substituir a pedra opaca pela luz.


A verticalidade das formas, a pureza das linhas e o equilíbrio da ornamentação na arquitetura foram transportados também para a pintura e a escultura. Acessoriamente, a abóbada ogival melhorava inclusive os valores acústicos de um edifício destinado à execução do canto sacro coral, tipicamente medieval.

A respeito do esmero e da busca da perfeição verificados na construção desses edifícios, fala-nos um significativo detalhe do telhado da Catedral de Notre Dame de Paris. Quem tiver oportunidade de examiná- lo de perto, poderá notar que, na parte mais recente, algumas das enormes traves de sustentação encontram- se marcadas pelo efeito deteriorante do tempo e dos insetos; na parte mais antiga, ao contrário, vigas mais finas suportam com leveza a pesada cobertura, sem qualquer marca desses dois fatores deletérios. Isso porque, no processo do travejamento da Idade Média, só se empregava o cerne da madeira, sua parte mais dura, de maior resistência.9

Relação entre gótico e Escolástica
A ideia de relacionar a Escolástica com as catedrais góticas não é nova. Segundo o historiador e teórico da arte Wilhelm Worringer, foi Gottfried Semper, com sua atitude parcial em favor do classicismo, quem primeiro empregou a expressão "Escolástica em pedra", numa canhestra tentativa de desacreditar o estilo ogival: "Este juízo praticamente exato sobre o gótico só é uma condenação para aqueles que não são capazes de encarar o grande fenômeno medieval da Escolástica numa perspectiva diferente do seu acanhado ponto de vista moderno".10 Contra a Escolástica e contra as catedrais góticas, é comum encontrarmos o mesmo tipo de preconceito, o que constitui um outro ponto de união que se pode ressaltar."Tanto a Escolástica como a arquitetura gótica têm sido votadas a um desprezo idêntico".11

Dentre todas as analogias possíveis, o crítico e historiador da arte Erwin Panofsky12 destaca, por exemplo, a coincidência no tempo e no espaço entre ambos os fenômenos. O paralelismo temporal não pode ser atribuído a uma mera casualidade; trata-se de uma relação tão marcante que hoje historiadores da filosofia e da arte a estabelecem sem maiores questionamentos. E as notas particulares do apogeu da Escolástica - para distingui-lo do período de formação - são bastante semelhantes às que caracterizam a arte do gótico radiante ou clássico, diferenciando-o do gótico primitivo.

De maneira análoga, a estruturação da Suma Teológica de São Tomás, numa exposição exaustiva e sistemática (diversamente dos Libri Sententiarum anteriores, que eram enciclopédias menos abrangentes e menos uniformes), coincide com a renovação das técnicas e formas arquitetônicas que possibilitaram a grande verticalidade e a harmoniosa proporção nas mais esplendorosas igrejas do século XIII.


Mas, sobretudo, pode-se destacar, tanto na filosofia escolástica como no estilo gótico, o mesmo impulso rumo ao transcendente, o desejo de unir a razão à fé, o corpo à alma, numa superior harmonia de totalidade.

Não significa que em épocas anteriores não se tenha buscado estabelecer essa união do natural com o sobrenatural. Mas a filosofia escolástica e a arquitetura gótica souberam expressar, doutrinária e artisticamente, a harmonia entre a fé e a razão, o equilíbrio de uma doutrina que pregava a transcendência do mundo material e físico para o impalpável e metafísico. Nas obras escolásticas, como nas catedrais medievais, o espiritual e o material se complementam de forma perfeita.

Espaço diáfano em volume e extensão
Um dos grandes méritos do estilo gótico consistiu na construção de igrejas que são maravilhosas materializações de uma ordem metafísica, no sentido mais profundo da palavra, representando em pedra a procura do homem pelo transcendental.

Essa característica se exprimiu inclusive na edificação de monumentos civis, indicando não haver cisão entre a sociedade espiritual e a temporal, como não há entre fé e razão. Também a vida profana deve ser inspirada, ordenada e marcada por um ardente espírito de fé.

Quem observa uma catedral gótica, tem a impressão de algo que impele para o transcendente, por seu impulso para as alturas, sua ascensão para o céu, não somente através de suas torres vertiginosas, mas sobretudo, no arrojo vertical de seus interiores, com a criação de uma nova sensibilidade do espaço e a preponderância da luz sobre os maciços das paredes de pedra.

O adelgaçamento das paredes, que possibilitou o desabrochar da técnica do vitral, permitiu uma completa identificação entre o espaço religioso e o mais metafísico dos elementos, a luz, que se manifesta tamisada para acentuar a ideia de sobrenatural. Os vitrais multicolores produzem como experiência imediata a impressão do transcendente: formas que existem como seres incorpóreos, nascidos da luz.

É o espaço, na arquitetura gótica, que finalmente determina seu efeito sublime. O movimento para o alto e a sutil comunicação com o exterior, através dos vitrais, dão a impressão de ligar o observador com o infinito, elevando-o da Terra ao Céu.

Deste modo, o espaço gótico deixa de ser mensurável com regularidade geométrica, como os antigos interiores bizantinos, deixa de causar a impressão de constituir um espaço definido, restrito, como nas estruturas românicas, para se apresentar diáfano em volume e extensão. Não se isola da amplidão exterior, mas une-se a ela pelo faiscar das luzes através do clerestório, perdendo-se o olhar pelas sombras das abóbadas, pelo caprichoso emaranhar dos arcos ogivais. Em suma, é um espaço em movimento.
Movimento para o alto, oposto ao peso da pedra
De acordo com Worringer,13 aquilo que o mundo tinha de incompreensível para os gregos, como seus deuses e sua cosmologia, eles procuraram materializar para torná-lo compreensível; tudo passava a ter o mesmo caráter plástico imediato e fácil de captar. Eis a razão pela qual a arte grega expressou de forma arquitetural o conflito da massa e da força, pois o que ela obteve foi com a pedra, através da pedra.

Na arquitetura gótica, porém, essa dependência de algo material desapareceu completamente, uma vez que a impressão causada pelo edifício gótico é apesar da pedra. Como o oposto da matéria é o espírito, desmaterializar a pedra é espiritualizá- la. A arquitetura gótica desmaterializou a pedra, em proveito de uma expressão puramente espiritual, superando todas as regras conhecidas e transcendendoas."Se lançarmos um olhar à catedral gótica, vemos um movimento vertical, por assim dizer petrificado, do qual toda a lei do peso parece excluída. Vemos apenas um movimento de força em direção ao alto, um movimento de uma enorme potência, em oposição ao peso natural da pedra".14

Parece inconcebível como as abóbadas podem descansar sobre pilares de tão frágil aparência. O edifício inteiro dá a impressão de ter-se eximido da lei da gravidade, de toda contenção terrestre. Os pilares se erguem altos e elegantes para, através das nervuras, se confundirem com as abóbadas num vertiginoso voo. E essas nervuras, que por todos os lados se levantam e aderem aos pilares como forças vivas, estruturam a abóbada sem provocar a sensação de esforço e de fadiga.

Auge e decadência do gótico e da Escolástica
O gótico surgiu como fruto de um movimento iniciado na Ile de France, verdadeiro núcleo geográfico da Escolástica. Um círculo de aproximadamente cento e cinquenta quilômetros, tendo Paris como centro, abarcou tanto os primeiros representantes da nova forma de pensar, como as igrejas ogivais do primeiro período.

Após 1270 houve um movimento crescente de descentralização, o que, na opinião de Panofsky, contribuiu para a gradual decadência da filosofia escolástica e do estilo gótico. "Verifica-se que a confiança na razão, que tudo une, e que triunfou em Tomás de Aquino, começa lentamente a declinar. Isso leva a uma revivescência de correntes que haviam sido reprimidas na fase ‘clássica', porém num plano totalmente diverso. [...] Abandonou-se igualmente o tipo ‘clássico' de catedral em favor de soluções estruturadas de forma menos exaustiva, de aparência frequentemente arcaica".15

O mesmo autor considera que dois fatores concomitantes causaram esta mudança fundamental: o misticismo antirracional de Mestre Eckhardt de Hochheim (1260- 1328), que haveria de afogar a razão na fé, e o nominalismo empirista de Guilherme de Ockham (1280- 1349), que desvinculou a razão da fé. "Tanto a mística como o nominalismo traçam linhas divisórias muito nítidas entre fé e razão".16 Ora, ambas as tendências conjugam-se também com o deslizamento para o esteticismo, que deu origem ao "gótico flamboyant", fazendo decair o "gótico escolástico".

Entretanto, seria mais exato afirmar que, num plano mais profundo, foi a perda da cosmovisão cristã da vida que fez declinar o pensamento escolástico e a arquitetura gótica. Sem essa cosmovisão, a poderosa dinâmica de uma estética posta a serviço de Deus começou a agonizar. Com o humanismo renascentista, passou a imperar o ideal clássico e neopagão de beleza, pondo de lado os valores transcendentais, procurando orgulhosamente substituir Deus pelo homem, como centro e medida absoluta de todas as coisas.

Mas as altaneiras catedrais góticas, pervadidas do espírito medieval, continuam a desafiar os séculos, como lembranças vivas dessa fecunda era cristã. Em suas ogivas, vitrais e colunatas, podemos ainda hoje contemplar a manifestação, em pedra, da perfeita harmonia entre a razão e a fé, própria da sabedoria escolástica.


(Este artigo resume a tese de Mestrado em Filosofia, defendida pelo Autor, na Universidade Pontifícia Bolivariana, deedellín, Colômbia, pela qual recebeu a nota máxima, summa cum laude.)

domingo, 14 de março de 2010

São Josemaria Escrivá

Vida de São Josemaria Escrivá de Balaguer (1902-1975), fundador do Opus Dei.

Josemaria Escrivá nasceu em Barbastro (Huesca, Espanha), em 9 de janeiro de 1902. Seus pais chamavam-se José e Dolores. Teve cinco irmãos: Carmen (1899-1957), Santiago (1919-1994) e outras três irmãs menores do que ele, que faleceram ainda pequenas. O casal Escrivá deu aos seus filhos uma profunda educação cristã.


Em 1915, a indústria de tecidos do pai abre falência, e ele tem de mudar-se para Logronho, onde encontrou outro emprego. Nessa cidade, Josemaria dá-se conta pela primeira vez da sua vocação: depois de ver umas pegadas na neve dos pés descalços de um religioso, intui que Deus deseja alguma coisa dele, embora não saiba exatamente o quê. Pensa que poderá descobri-lo mais facilmente se se fizer sacerdote, e começa a preparar-se, primeiro em Logronho e, mais tarde, no seminário de Saragoça.

Seguindo um conselho de seu pai, cursa na Universidade de Saragoça a Faculdade de Direito, como aluno livre. Seu pai morre em 1924, e ele fica como chefe de família. Recebe a ordenação sacerdotal em 28 de março de 1925 e começa a exercer o ministério numa paróquia rural e depois em Saragoça.

Em 1927, transfere-se para Madrid, com permissão do seu bispo, a fim de doutorar-se em Direito. Ali, no dia 2 de outubro de 1928, Deus faz-lhe ver a missão que lhe vinha inspirando havia anos, e funda o Opus Dei. A partir desse momento, passa a trabalhar com todas as suas forças no desenvolvimento da fundação que Deus lhe pede, ao mesmo tempo que continua a exercer o ministério pastoral que lhe fora encomendado naqueles anos, e que o punha diariamente em contato com a doença e a pobreza dos hospitais e bairros populares de Madrid.

Quando eclode a guerra civil, em 1936, encontra-se em Madrid. A perseguição religiosa obriga-o a refugiar-se em diferentes lugares. Exerce o seu ministério sacerdotal clandestinamente, até que consegue sair de Madrid. Depois de atravessar os Pireneus até o sul da França, instala-se em Burgos.

Quando termina a guerra, em 1939, volta a Madrid. Nos anos seguintes, dirige numerosos retiros espirituais para leigos, sacerdotes e religiosos. Nesse mesmo ano de 1939, conclui os estudos de doutorado em Direito.

Em 1946, fixa a sua residência em Roma. Obtém o Doutorado em Teologia pela Universidade Lateranense. É nomeado consultor de duas Congregações vaticanas, membro honorário da Pontifícia Academia de Teologia e Prelado de honra de Sua Santidade. Acompanha com atenção os preparativos e as sessões do Concílio Vaticano II (1962-1965) e mantém um relacionamento intenso com muitos padres conciliares.

De Roma, faz numerosas viagens a diversos países europeus para impulsionar o estabelecimento e a consolidação do Opus Dei nesses lugares. Com o mesmo objetivo, realiza entre 1970 e 1975 longas viagens até o México, a Península Ibérica, a América do Sul e Guatemala, e nelas também tem reuniões de catequese com grupos numerosos de homens e mulheres.

Falece em Roma no dia 26 de junho de 1975. Vários milhares de pessoas, entre elas muitos bispos de diversos países - quase um terço do episcopado mundial -, solicitam à Santa Sé a abertura da sua causa de canonização.

No dia 17 de maio de 1992, João Paulo II beatifica Josemaria Escrivá. Proclama-o santo dez anos depois, em 6 de outubro de 2002, na Praça de São Pedro, em Roma, diante de uma grande multidão. «Seguindo as suas pegadas», disse o Papa nessa ocasião na sua homilia, «difundam na sociedade, sem distinção de raça, classe, cultura ou idade, a consciência de que todos estamos chamados à santidade».

"Senhor, dai-nos sacerdotes santos"

Homilia proferida pelo Prelado, durante a cerimônia de ordenação sacerdotal de dois adscritos, no dia 6 de setembro de 2009 em Torreciudad, na qual pediu orações pelo Papa, pelos bispos e por todos os sacerdotes.

30 de setembro de 2009

Queridíssimos ordenandos, queridíssimos irmãos no sacerdócio, queridíssimos irmãos e irmãs. Há na Igreja muitas orações de louvor à Santíssima Trindade. Uma delas, mais conhecida por Triságio Angélico, repete umas palavras praticamente com períodos contínuos, que dizem: “Tibi laus, tibi gloria, tibi gratiarum actio in saecula sempiterna, oh Beata Trinitas”. A Ti, Trindade Beatíssima, todo o louvor, toda a glória, toda a ação de graças. Façamos sempre, e hoje de modo especial, esta maneira de nos dirigirmos à Trindade Beatíssima que nos auxilia constantemente com a Sua providência corrente e extraordinária. Vivemos, respiramos, temos capacidade para trabalhar, capacidade para amar, precisamente por essa assistência, por essa proximidade de Deus Pai, de Deus Filho e de Deus Espírito Santo, Deus Uno e Trino. Um mistério para nós inabordável, mas que ao mesmo tempo, nos enche de tanto consolo porque nos sentimos filhas e filhos de Deus, irmãos de Jesus Cristo e seguidos pela ação santificadora do Espírito Santo.

Eu vos diria que hoje é um dia muito apropriado para que na nossa presença diante de Deus ao longo do dia, invoquemos a Trindade e Lhe demos graças pelos dons que recebemos, concretamente o dom do sacerdócio para estes dois irmãos nossos. Na Igreja, tal e como quer Jesus Cristo, temos que ser, todas e todos, pessoas que rezam, pessoas que sabem que a sua vida pode transformar-se em diálogo com o Senhor sem que haja interrupção porque Ele, esse Deus Uno e Trino, não deixa nunca de nos olhar. Mas, além disso, hoje, embrenhados como estamos no Ano Sacerdotal que estamos vivendo por desejo de Bento XVI, é muito oportuno que se eleve de toda a Igreja uma oração constante pelos sacerdotes. Começamos pelo Supremo Pastor, uma oração pelo Papa que tem que ser uma oração afetuosa de união e de apoio para todo o seu trabalho incansável que está realizando. Como não recordar que, na sua humildade, ao começar o Pontificado, de maneira contínua, nos disse, estendendo a mão e manifestando o desejo de que não o deixemos só: “Rezai por mim, rezai por mim, rezai por mim…”. É bom que consideremos se realmente todos os dias vem à nossa alma a necessidade de pedir pelo Romano Pontífice, por este Supremo Pastor no qual podemos ter a mais absoluta segurança, em toda a sua ação pastoral, em toda a sua ação de Supremo Pastor, que nos segue a todas, a todos, a cada uma e a cada um.


É, igualmente, lógico que elevemos a nossa oração pedindo por todos os Bispos, os sucessores dos apóstolos, para que sejam fiéis seguidores de Jesus Cristo, e para que atuem constantemente em nome do Senhor, com esse mandato que deu àqueles primeiros Doze: “Ide e pregai às gentes…”, com a vida, não somente com a palavra, com a vida, “sempre em Meu Nome”. E é lógico que nos detenhamos neste dia para pedir pelo Bispo desta diocese, de maneira que sinta o apoio também daqueles que hoje se encontram neste território, Barbastro, que está sob a sua jurisdição. Peço-vos que rezemos todos devotamente por todos os sacerdotes. Há um costume em muitas nações da América Latina, que podemos incorporar, para nosso benefício pessoal, na nossa oração diária. Nesses lugares, depois da Bênção com o Santíssimo, quando se rezam as petições para reparar pelas ofensas que se fazem a Deus, repetem com devoção, como uma necessidade, uma urgência da alma de todas as pessoas que participam: Senhor, dai-nos sacerdotes santos… E dizem-no por três vezes: Senhor, dai-nos sacerdotes santos; Senhor, dai-nos sacerdotes santos… Depende, também, da oração do povo. É verdade que é o Senhor quem chama, mas também é verdade que se o povo de Deus se une em oração pedindo ao Senhor, à Trindade Santíssima, que nos envie sacerdotes santos, forçaremos essa vontade divina para que não faltem homens que se decidam a empreender este caminho e que queiram atuar constantemente com o único sacerdócio que há, o sacerdócio de Cristo.

E oração por todo o povo de Deus, por todas as mulheres e por todos os homens, sem esquecer que todas e todos tendes alma sacerdotal, participais nesse sacerdócio real de Cristo que tem que ser para vós um estímulo para crescer na vossa própria vida interior pessoal, que tem que ser também um empurrão para que não descuidemos do espírito de penitência próprio das pessoas que amam. Não há amor sem sacrifício. E até no amor humano o vemos: onde falta sacrifício, falta o verdadeiro amor, o amor autêntico. E tendes que viver também com essa preocupação por todas as almas do mundo inteiro, chegando até elas com a vossa vida, porque podemos atingi-los com a nossa vida… Mas, concretamente, refiro-me às mulheres e aos homens do povo de Deus que com a sua vida podem e devem chegar aos quatro pontos cardiais, implorando a ajuda por aqueles que são nossos irmãos, implorando também a ajuda por aqueles que não conhecem Cristo para que O conheçam.


Hoje, volto a repetir, é um dia memorável. Estamos percorrendo este Ano Sacerdotal também sob a proteção do Santo Cura d’Ars. Um homem que trabalhou num lugarejo perdido da sua terra, na França. O que era Ars em comparação com a extensão da Europa? O que era Ars em comparação com os cinco continentes? Um lugarejo. E, no entanto, a vida daquele santo sacerdote, a quem S. Josemaria Escrivá tanto venerava, era um ponto de ignição para o mundo inteiro. A partir do seu confessionário - não deixemos de fomentar em nós e nas pessoas com as quais convivemos a prática da confissão – a partir do seu confessionário, do seu altar, ia pondo, com a piedade de quem ama a Deus sobre todas as coisas, a todas e cada uma das pessoas do mundo inteiro. E por isso foi nomeado, com toda a lógica, pastor e padroeiro de todos os confessores. Assim, hoje é um dia muito extraordinário, festa para toda a Igreja, pela ordenação destes irmãos nossos. Um dia em que temos que tocar essa nota que define a Igreja e que recitamos no Credo, Ecclesiae Una. Temos que sentir-nos irmanados, mas irmanados, no espírito e também na vida corrente, com todas as pessoas do mundo inteiro. Que essa recitação do Credo “credo et unam sanctam, catolicam et apostolicam Ecclesiam” não se fique só em palavras.


Irmãs e irmãos meus, é preciso darmos mais conteúdo à oração, é preciso darmos mais força ao que fazemos, tendo em conta que a nossa oração pessoal sustenta toda a Igreja. Recorramos, insisto também ao Cura d’Ars, a S. João Maria Vianney, para que haja uma grande mudança no mundo a propósito desse grande sacramento da Penitência, que nos abre as portas da vida à graça e no-la aumenta quando o recebemos com boas disposições e decididos a corrigir até mesmo as nossas faltas mais leves.

E agora me dirijo a vós, queridíssimos ordenandos. Recordo-vos o que se recitará quando vos forem entregues a patena com a hóstia, o cálice com o vinho. Dir-se-vos-á, com palavras que tendes que incorporar na vossa vida, que temos que incorporar todos os sacerdotes na nossa vida quotidiana: “Considera o que realizas”. Recordo perfeitamente as muitas vezes em que S. Josemaria Escrivá de Balaguer, o Fundador do Opus Dei, na sua oração constante, olhava para as mãos e comentava alto, ou, às vezes, comentava entre Deus e ele, “que com estas mãos possa eu tocar em Deus, possa eu dar Deus…”. E isso levava-o a uma maior oração, a uma maior expiação e a uma maior alegria, porque que felicidade maior do que a de poder ter Cristo conosco e tão perto. Assim pois, meus filhos ordenandos, que seja assim, que imiteis o que realizais, que trateis e conformeis a vossa vida com o ministério de Cristo na cruz. Não é egoísmo que os sacerdotes peçam pela sua santidade pessoal, porque só se procuramos o Senhor com retidão de intenção, exclusivamente a Ele, O daremos com naturalidade e com urgência a todas as almas.

Tenho aqui umas palavras de S. Josemaria que nos dizem: “Nisto se fundamenta a incomparável dignidade do sacerdote, uma grandeza emprestada, compatível com a minha miséria. Peço a Deus nosso Senhor que nos dê a todos os sacerdotes a graça de realizar santamente as coisas santas, de refletir, também na nossa vida, sobre as maravilhas das grandezas de Deus”. Peçamos por todos os sacerdotes e que todos os sacerdotes peçam para que não entorpeçamos, para que não interrompamos a graça de Deus, que pode chegar às almas pela nossa correspondência fiel. Meus filhos ordenandos, sede uns grandes apaixonados da Santa Missa, do sacramento da Confissão e da pregação. Socorrei-vos todos os dias desse mestre que tivemos aqui na terra… Primeiro de Jesus Cristo, evidentemente, mas o Senhor quer que sigamos também as pegadas de S. Josemaria Escrivá, para que nos conduza a um amor e a um convívio com a Trindade que informe todos os nossos afazeres e todos os afazeres dos sacerdotes.

E não podemos, não devemos nos esquecer… porque a nossa vida, a vida de todos, tem que ser litúrgica e não podemos passar por alto, ouvir como se fossem palavras que ficam no ar, o que ouvimos na Missa quando a assistimos, as leituras... Na Primeira Leitura, recorda-se- concretamente aos sacerdotes, mas também a todos, “antes de formar-te no ventre de tua mãe, antes de teres nascido do seio materno, Eu te escolhi…”. Fomos eleitos por Deus e nós, os sacerdotes fomos eleitos desde a eternidade para sermos sacerdotes de Cristo. Assim recordemos todos, mas concretamente os sacerdotes, esta eleição de Deus que nos faz sermos outros Cristos, o próprio Cristo em determinados momentos. E volto a buscar outras palavras fantásticas do Fundador do Opus Dei: “Esta é a identidade do sacerdote: instrumento imediato e diário dessa graça salvadora que Deus nos ganhou. Se compreendermos isto, se meditarmos no silêncio ativo da oração, como considerar o sacerdócio uma renúncia? É um ganho que não se pode calcular. Sim, é verdade, todos os cristãos, pela alma sacerdotal e todos os sacerdotes, estamos apaixonados pela fonte do amor. Não há renúncia, pelo contrário, é nos colocar mais nessa intimidade de Deus”.

Na Segunda Leitura, São Paulo recordou-nos que temos que ser e concretamente os sacerdotes, humildes, amáveis, compreensivos, excedendo-nos… O que não significa suportar; suportar é diminuir a assistência de Deus. Significa colaborar, com muitíssimo gosto, em ajudar as pessoas que estão à nossa volta, pensando que todos, mas especialmente os sacerdotes, devemos fazer nossas essas palavras de São Paulo: “mihi vivere Christus est”, para mim, viver é Cristo! De forma que todos e todas tenhamos a ideia clara de que, pelo Batismo que recebemos, as pessoas têm que reconhecer na nossa conduta esse Cristo que deve informar todas as nossas ações.

E, finalmente, ouvimos as palavras sobre o Bom Pastor. O bom pastor, sabemo-lo perfeitamente, é como o bom pai, como a boa mãe, dá a sua vida pelas ovelhas. Por todas, por todas, sem fazer discriminação alguma. Pois é característica do sacerdote o serviço generoso, alegre, constante, também nos momentos de cansaço, de luta pessoal para estar mais perto de Deus.

Não poderia faltar a minha felicitação aos avós, aos pais, aos irmãos, destes dois ordenandos. Que Deus vos abençoe! O Senhor passou pelas vossas famílias dizendo-vos, uma vez mais, de um modo particular, como vos ama e como conta convosco. A vossa tarefa não terminou e tendes que ajudar diariamente para que eles sejam sacerdotes que vivam com Cristo em todo o momento. Com a felicitação, o pedido de que rezeis pelo Opus Dei, para que possamos servir a Igreja como a Igreja quer ser servida. E termino dirigindo-me à Mãe do sacerdote. Todos somos filhos de Maria, que foi-nos entregue nesse momento crucial e solene do Calvário. Foi-nos dito, através de João, “eis aí a tua Mãe”. Pois bem, a vós sacerdotes digo-vos que convivais com Ela, que todos convivamos com Ela, mas concretamente vós os dois, que convivais mais, muito mais, como aconselhava S. Josemaria com umas palavras claras: “Chama-a, com força, com força… Ela tua Mãe Santa Maria, te escuta, e te brinda com a graça do seu Filho, com o consolo do seu regaço, com a ternura das suas carícias e ficarás reconfortado para a nova luta”.

Assim seja.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Para João Paulo II, a plenitude dos tempos atuais manifesta a dignidade extraordinária da mulher


Bogotá (Segunda-feira, 08-03-2010, Gaudium Press)
Em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, comemorado hoje, a Gaudium Press resolveu presentear seus leitores com as palavras do Papa João Paulo II, extraídas de sua Carta Apostólica "Mulieris Dignitatem", que foi publicada em 1988, por ocasião do Ano Mariano. Na missiva, o pontífice trata da dignidade da mulher.


No início de sua carta, João Paulo II cita parte da mensagem final do Concilio Vaticano II, em que diz: "Chegou a hora em que a vocação da mulher se cumpre plenamente, a hora em que a mulher adquire no mundo uma influência, um peso, um poder jamais alcançado até agora". Conforme João Paulo II, esta plenitude dos tempos atuais manifesta a dignidade extraordinária da mulher, sendo Maria, Mãe de Deus, como mulher, "a expressão mais completa dessa dignidade e dessa vocação".

O pontífice comenta também a respeito da relação de igualdade entre homem e mulher. João Paulo II afirmou na época que o texto bíblico do Gênesis fornece bases suficientes para reconhecer essa igualdade a partir do ponto de vista da humanidade. Para o pontífice, a igualdade da mulher se observa em sua união com o homem. "A mulher é a companheira da vida com quem o homem pode unir-se como esposa, chegando a ser com ela uma só carne", com a "instituição do matrimonio", salienta.

O Papa Wojtyla aborda ainda a questão envolvendo os direitos da mulher. Conforme João Paulo II, os recursos pessoais da feminilidade não são menores que os recursos da masculinidade, "são só diferentes". Para o pontífice "a mulher em nome da libertação do domínio do homem não pode tender a apropriar-se das características masculinas". Segundo o Santo Padre, por esse caminho a mulher provavelmente não chegará a realizar-se.

Por fim, o pontífice destaca duas dimensões particulares da mulher que a tornam realizada: a virgindade e a maternidade. Dimensões que, no Evangelho, fazem todo sentido em Maria, que "como Virgem chega a ser Mãe do Filho de Deus", explica. Para João Paulo II, o exemplo de Maria auxilia as mulheres a encontrarem nestas duas dimensões particulares o seu verdadeiro caminho.

(Texto original de Sonia Trujillo)

sexta-feira, 5 de março de 2010

CNBB lança campanha para distribuir bíblias a brasileiros mais pobres

Brasília (Quinta-feira, 04-03-2010, Gaudium Press)

A Conferência Nacional de Bispos do Brasil (CNBB), em conjunto com a Comissão para a Missão Continental no Brasil, lançará, no próximo sábado, 06, em Teresina (PI), a campanha nacional chamada: Projeto 1 milhão de Bíblias, cujo tema é "Ide, pois, fazer discípulos entre todas as nações, e batizai-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo" (Mt 28,19) e o lema "Discípulo e servidores da Palavra de Deus".


Participará do lançamento, além do secretário-geral da CNBB, Dom Dimas Lara Barbosa, o presidente da Regional Nordeste 4 da CNBB, bispo de Teresina, Dom Sérgio da Rocha.

Conforme a CNBB, o objetivo da campanha é levar a palavra de Deus a todos os brasileiros sem condições econômicas para comprar uma Bíblia e outros materiais educativos de evangelização. Contudo, antes da distribuição de Bíblias às paróquias do país, haverá uma primeira fase que consistirá na apresentação de um projeto de evangelização por parte das dioceses e arquidiocese à CNBB. Se o projeto for aprovado por uma comissão de análise, aí sim as Bíblias serão repassadas gratuitamente a todos.

Um dos participantes do projeto, o assessor da Comissão Episcopal Pastoral para a Ação Missionária da CNBB e secretário executivo do Conselho Missionário Nacional (Comina), Padre Altevir Silva, destaca que a impressão das Bíblias foi fruto de doações. O religioso explica que não apenas a Bíblia sagrada será distribuída pela campanha. Conforme o Padre, será feito um kit contendo também uma bíblia infantil; um pequeno catecismo chamado "Eu Creio" e um livreto sobre a iniciação à leitura da Bíblia.

A CNBB informa ainda que, segundo organizadores do projeto, algumas regionais da CNBB terão prioridade no atendimento para receber os kits com as Bíblias. São elas: Regional Nordeste 4; Regional Nordeste 1; Regional Nordeste 2; Regional Nordeste 5; Regional Oeste 1; Regional Oeste 2 e Regional Centro Oeste.

terça-feira, 2 de março de 2010

Symbolum Apostolorum

Credo in Deum Patrem omnipotentem, creatorem caeli et terrae;
et Iesum Christum, Filium eius unicum, Dominum nostrum;
qui conceptus est de Spiritu Sancto, natus ex Maria Virgine;
passus sub Pontio Pilatos, crucifixus, mortuus et sepultus;
descendit ad inferos; tertia die resurrexit a mortuis;
ascendit ad caelos, sedet ad dexteram Dei Patris omnipotentis;]
inde venturus est iundicare vivos et mortuos.
Credo in Spiritum Sanctum;
sanctam Ecclesiam catholicam; Sanctorum communionem;
remissionem peccatorum;
carnis resurrectionem;
vitam aeternam. Amen.